setembro 24, 2003

Apocalipse

"Eu sei que já vi isto, esta destruição insana, esta cor da terra morta, como se do céu tivesse caído uma chuva de labaredas digna do Apocalipse. Vi imagens assim de Tunguska. Vi imagens assim de Hiroxima. Mas em Tunguska, no coração da Sibéria, o que tombou dos céus, numa espantosa manhã de Junho de 1908, foi um cometa gigante, enorme como nenhum homem terá visto antes ou depois, uma explosão de energia que deitou por terra todas as árvores num raio de dois quilómetros quadrados. E em Hiroxima foi o que se sabe: a força bruta de uma bomba nuclear, arrasando uma cidade e matando cerca de 100.000 pessoas, reduzindo quase tudo a quase nada. Tunguska e Hiroxima são dois extremos, duas tragédias maiores do que a nossa imaginação, mas é nelas que penso quando olho esta terra calcinada e imagino uma chuva de labaredas (digna do Apocalipse) caindo do céu de Aljezur. Só que não foi do céu que veio o fogo. O fogo nasceu cá em baixo, rente ao chão. O fogo espalhou as suas línguas alaranjadas por todo o lado, tão feroz como um cometa, tão obsessivo como uma bomba nuclear. E ninguém pôde fazer nada (ou muito pouco) pelas colinas que outrora foram verdes. É claro que Aljezur, por muito trágica que tenha sido toda esta destruição, não se equivale a Tunguska e muito menos a Hiroxima. Mas a sua paisagem, sim."

DNA, 20/09/03

Publicado por David em setembro 24, 2003 12:31 PM
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